A vitamina D tem um papel não tão discutido quanto suas ações principais, mas não menos relevante, que é a interação com os promotores da imunidade humana. Tal como para os glicocorticoides, as células do nosso sistema imune (células B, T, apresentadoras de antígenos, entre outras) expressam receptores de vitamina D em suas membranas e são capazes de sintetizar o metabólito ativo de vitamina D (1,25-dihidróxiD3), o que justifica sua ação autócrina no sistema imune, modulando tanto as respostas inata como adaptativa. Essa modulação se dá semelhante a uma alça de feedback negativo, visto que a vitamina suprime a diferenciação de células T, mudando a resposta imune do braço Th1 pro braço Th2, inibe o braço Th17, inibe a proliferação de células B e a diferenciação das células dendríticas, entre outras ações.
Visto isso, na ocorrência de níveis baixos de vitamina D, a resposta imune se torna exacerbada, facilitando o reconhecimento de antígenos próprios. Além disso, desregulação na proporção dos braços Th1, Th2 e Th17 podem ocorrer, assim como expressão aumentada de algumas citocinas, como as IL-1, IL-6, IL-8, IL-12 e TNFα. Como resultado disso, a deficiência de vitamina D é encontrada em indivíduos portadores ou predispostos ao desenvolvimento de algumas doenças, como cânceres, artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico, esclerose múltipla (previamente discutida neste blog) e diabetes mellitus tipo 1. Um exemplo interessante da importância da vitamina D é o caso dos cânceres de mama e próstata, disfunções nas quais o papel do nutriente em questão (1,25(OH)D3) é diminuir a expressão das aromatases, enzimas que catalisam a produção de estrogênios a partir de androgênios, processo que ocorre em níveis particularmente altos nas células cancerígenas. O mecanismo de atividade da vitamina D como medida terapêutica preventiva nesse caso se dá de duas formas, que são a forma direta, ou seja, inibição da transcrição de aromatases, e a forma indireta, que é na diminuição da atividade biológica das prostaglandinas (em especial a PGE2), que são importantes estimuladoras das aromatases.
No caso das outras doenças, as terapias de reposição de vitamina D têm a função de reestruturar as respostas imunes do corpo, uma vez que reequilibram as expressões de Th1, Th2 e Th17, normalizam a secreção de interleucinas e a maturação e diferenciação de diversas células do sistema imune.
Fontes: HOLICK, F. M. Sunlight and vitamin D for bone health and prevention of autoimmune diseases, cancers, and cardiovascular disease. The American Journal of Clinical Nutrition, vol. 80, n. 6, p. 1678S-1688S, 2004.
CUTOLO, M. Further emergent evidence for the vitamin D endocrine system involvement in autoimmune rheumatic disease risk and prognosis. Annals of the Rheumatic diseases, vol. 72, n. 4, p. 473-475, 2013.
ADORINNI, L.; PENNA, G. Control of autoimmune diseases by the vitamin D endocrine system. Nature Reviews Rheumathology, vol. 4, n. 8, p. 404-412, 2008.
ARANOW, C. Vitamin D and the immune system. Journal of Investigative Medicine, vol. 59, n. 6, p. 881-886, 2011.






